Seja "Pasteurizado" no Deserto
Uma profunda reflexão sobre como o deserto atua como um processo de purificação espiritual em nossas vidas. Descubra o código por trás da promessa de uma terra que mana leite e mel e compreenda como as provações nos preparam para nutrir outras pessoas com a palavra de D'us.


INTRODUÇÃO
Belo Horizonte, 21 de setembro de 2026.
Hoje, após meses de processamento, resolvi retirar de uma das gavetas de minha memória um texto que poderá contribuir para um eventual momento de travessia de alguém (ou de alguns).
Avançando em minha peregrinação nesta terra, recordei que exatamente hoje é um dia memorável no calendário bíblico: o dia em que o sacerdote oferece o sacrifício pelos pecados de todo o povo de Israel.
Neste Yom Kippur, a meditação a respeito do perdão me levou ao reconhecimento das condições que me trouxeram até aqui. Mas, como todo inquieto investigador, não parei até perceber a existência do que eu chamaria de "pontos de contato" entre a realidade atual, pessoal e coletiva, e a realidade marcada nas páginas das antigas Letras Sagradas.
Bem, em primeiro lugar, preciso alertar que todas as menções a seguir, como já é possível notar em nossos textos, partem de algumas premissas muito claras. Uma delas, por exemplo, é a consideração da sequência de eventos apresentada na narrativa bíblica como uma demonstração arquetípica de como todos os passos dos seres humanos haveriam de ser dados após aqueles eventos.
Explico. A matriz constitutiva da Criação revela um processamento de ocorrências que parte de uma perspectiva relativamente estática, em que a dinâmica de eventos posteriores tende, necessariamente, a repetições (em maior ou menor grau) daquilo que já foi consolidado estruturalmente em episódios passados, ocorridos nos primórdios do desenvolvimento da realidade física.
Ainda não ficou claro? Então, vamos explicar tudo isso por partes. Acompanhe.
1. Tempo e espaço: o "palco" de visualização das realidades eternas
Pois bem. Antes da compreensão a respeito dos eventos produzidos na dimensão física da Criação, é preciso entender que nada do que ocorreu, desde o "haja luz" de Gênesis 1, é por mero acaso. Tudo tem o seu "porquê" de existência e ocorrência. E é claro que compreender isso mudará toda a perspectiva de análise da realidade como um todo.
Partindo da premissa de que a Bíblia relata integralmente a verdade, a despeito da opinião contrária de alguns (em nosso entender, totalmente equivocada), é possível chegar à conclusão de que todos os eventos ali registrados possuem uma lógica sequencial. Essa lógica revela como a estrutura dessa dimensão física da Criação (a Terra) responde aos eventos que ocorreram num período que nomearemos como "eternidade pré-cronológica", compreendido como o momento que antecede a criação da estrutura temporal da realidade em que vivemos atualmente.
Objetivamente, o fato é que eu consegui vislumbrar nesse sistema fechado, que é o nosso fluxo temporal, evidências de como o processamento dos eventos no espaço físico da Criação se encaixa num contexto maior.
Mas vejamos o que isso significa com bastante cautela e atenção.
Em primeiro lugar, temos a seguinte informação: "No Princípio criou D'us os céus e a terra" (Gênesis 1.1).
Agora, observe, caro leitor, como temos ali uma descrição sequencial de todo o processo criativo. Em primeiro lugar, D'us cria os céus e (depois) a terra. Nisso, podemos perceber que a estrutura visível, tangível, material e física da Criação (Criação = céus + terra) só aparece no cenário após o estabelecimento dos céus. E a palavra "céus" aqui não está se referindo àquilo que nós vemos fisicamente quando olhamos para cima, do lado de fora de nossas residências. Refere-se, principalmente, ao contexto imaterial, intangível e invisível aos olhos humanos, em que habitam os seres espirituais, especialmente os biblicamente nomeados como anjos (em suas diferentes classes).
Por isso, em respeito a essa sequência criativa (e em apertada síntese), podemos concluir que tudo o que vemos na Terra é uma consequência, um desdobramento de uma dimensão anterior à existência dela, no caso, os céus.
Eternidade é o nome que daremos a esse contexto celeste. Não se trata apenas de um conceito associado ou oposto ao tempo, mas de uma conjuntura estruturada de forma diferente da Terra. Uma outra dimensão, portanto.
Ali é possível percebermos que, devido às suas particulares características estruturais, os eventos e comportamentos dos elementos e indivíduos que dessa dimensão participam tendem, necessariamente, a manifestar uma característica de perenidade, própria do ambiente ao qual pertencem.
Em outras palavras, tudo o que é produzido na Eternidade necessariamente carrega consigo a característica mais fundamental dessa dimensão: a permanência, a continuidade e a perenidade.
Por outro lado, a dimensão física da Existência/Criação (a Terra) pode ser conceituada, nesse contexto, como uma dimensão na qual todos os eventos ocorridos na Eternidade são recepcionados. Ora, isso significa dizer que nossa "caixinha fechada de tempo" é o destino de manifestação daquela característica de perenidade pertencente à Eternidade.
Nesse sentido, podemos compreender que, não por acaso, o tempo apresenta uma estrutura baseada num modelo cíclico fechado de manifestação. Isto é, não importa quão distante a Terra esteja do momento na Eternidade em que ela surgiu: sempre teremos a repetição da mesma estrutura temporal. Estamos todos "presos" nesta mesma dimensão, ainda que as condições espaciais sejam alteradas ao longo das eras, anos, dias, meses, semanas e horas...
1.1 O Tempo e seus desdobramentos
Essa "cerca" chamada tempo, dentro da qual o espaço é ocupado por nós, seres humanos (além da fauna e da flora), sempre se repete, porém, em momentos diferentes. Tomemos uma semana como exemplo. Ela é composta por dias com nomes fixos que se repetem ininterruptamente. E o que dizer sobre o registro das horas? Elas também demonstram uma estrutura fixa de medição da passagem do tempo no espaço em que estamos vivendo.
Bem, embora pareça uma ideia relativamente simples, a observação de como o tempo é medido e disposto pode, em conexão com o revelado nas Sagradas Escrituras, nos mostrar o sentido por trás de toda essa estrutura que nos envolve em absolutamente todos os dias de nossas vidas.
No início de tudo, conforme registrado no capítulo um do livro de Gênesis, a produção da dimensão física da Criação revelou que a estrutura do tempo foi posta como uma condição inafastável do desenvolvimento progressivo da Terra. Tudo foi criado, a partir da Eternidade, em seis dias. E esse intervalo temporal nos acompanha até os dias de hoje.
O mais relevante é que identificamos que foi precisamente nesse momento (de encaixe da dimensão física para se desenvolver num tempo determinado) que características da Eternidade (tais como a perenidade e a continuidade) influenciaram diretamente a dimensão física. Dito de outra forma, ao concluir a produção da dimensão física da Criação e conectar essa mesma dimensão a um fluxo temporal cíclico, mas contínuo, o Criador estabelecia a matriz para que o que fora anteriormente abrigado somente pela Eternidade pudesse se consolidar, conquistando assim características de tangibilidade e visibilidade para as criaturas racionais (os anjos e os homens) estabelecidas também por Ele.
Portanto, o tempo funciona como uma estrutura que dá "roupagem de tangibilidade" à dimensão atemporal da Criação (a Eternidade).
Ora, nesse cenário, não é difícil concluir que, uma vez consolidando a dimensão física da Criação (a Terra) numa estrutura cíclica (pois, o tempo "se repete" sempre), o Criador conduziu os eventos ocorridos num estágio anterior à cronologia (e, por definição, perenes) a uma repetição determinada. Por isso, ao longo das eras, todas as ocorrências manifestadas na Eternidade pré-cronológica podem ser vistas pelos anjos e pelos homens nesse que podemos nomear precisamente como "o palco de eventos da Criação", o "teatro da Existência".
Não podemos deixar de destacar que o fundamento lógico para a compreensão dessa zona de influência do que aconteceu na Eternidade pré-cronológica sobre a dimensão temporal do "lado físico da Criação" é a conexão de ambas as realidades (a celeste e a terrena) na pessoa do próprio Criador, porque "...Dele, por Ele, e para Ele são todas as coisas" (Rm.11.36), "...tanto as que estão nos céus, quanto as que estão na terra" (Cl.1.15-16); coisas tratadas mais precisamente por nós em outro momento.
Não obstante, é também importante salientar aqui que identificamos essas ocorrências na dimensão física da Criação como de "repetição determinada", porque o elemento "morte" é o fator decisivo para a mudança integral dos contextos terrenos, o que põe termo a essa "representação" da Eternidade na Terra. Porém, devido à característica cíclica, o tempo se encarrega sempre de abrigar novamente a mesma "peça", só que com novas "versões" protagonizadas por "personagens diferentes".
2. O Espaço e as mudanças
Quando compreendemos corretamente a matriz temporal na qual estamos inseridos, podemos chegar ao conhecimento (ou reconhecimento) de como os eventos se dispõem no espaço físico da Criação.
Não conseguiremos analisar aqui todos os eventos descritos na Bíblia e a relação de cada um deles com a Eternidade, por razões óbvias. Todavia, poderíamos mencionar alguns exemplos de fatos ocorridos no passado, registrados na Bíblia, e que representam tanto desdobramentos da Eternidade pré-cronológica quanto as bases para uma repetição, em diferentes níveis, no futuro.
Tomemos, como exemplo, o caso de Abel e Caim. Dois irmãos antagonistas que demonstraram em suas vidas a relação do Logos divino e do Querubim Pecador com o Pai Eterno, na Eternidade anterior à cronologia. E, por representarem eventos "naturalmente perenes" (digamos assim), têm o código de sua manifestação retomado até mesmo no livro de Apocalipse, que revela o tempo do fim. Veja:
(Aqui, é necessária a soma destas duas passagens):
"E nela se achou o sangue dos profetas, e dos santos, e de todos os que foram mortos na terra" (Apocalipse 18.24).
"...Portanto, eis que eu vos envio profetas, sábios e escribas; e a uns deles matareis e crucificareis; e a outros deles açoitareis nas vossas sinagogas e os perseguireis de cidade em cidade, para que sobre vós caia todo o sangue justo, que foi derramado sobre a terra, desde o sangue de Abel, o justo(...)" (Mateus 23.34 e 35).
Perceba como esses textos se conectam, e como temos um fato ocorrido num período anterior à existência do tempo que produziu efeitos durante todas as eras.
Associado a este evento, temos também o caso de Salomão e Adonias. Nesta versão de manifestação das "realidades da Eternidade", vemos um rei, escolhido pelo pai para ser seu sucessor na atuação do ofício monárquico, e outro personagem se rebelando contra a autoridade do rei Davi, e se autoproclamando rei de todo o Israel.
Ora, este evento sinaliza claramente para a dimensão da Eternidade, em que o antigo querubim pecador rompe com a subordinação à escolha do Logos divino como rei de toda a Criação, por parte do Pai Eterno, se autoproclamando como "rei", e tomando para si a dimensão física da Existência, que corresponderia a Abisague do contexto da história bíblica imediata da sucessão do reino de Davi.
Ao fim e ao cabo, assim como na "versão histórica terrena" registrada na Bíblia, o Logos divino (também chamado de "filho de Davi") terá que "retirar a vida" daquele ser que ousou usurpar a posição de domínio no Reino do Pai Eterno. A seguir, veja como se conectam esses eventos:
A versão histórica:
"...Então, respondeu o rei Salomão e disse a sua mãe: E por que pedes a Abisague, a sunamita, para Adonias? Pede também para ele o reino (porque é meu irmão maior)(...) E jurou o rei Salomão pelo SENHOR, dizendo: Assim D'us me faça e outro tanto, se não falou Adonias esta palavra contra a sua vida. Agora, pois, vive o SENHOR, que me confirmou, e me fez assentar no trono de Davi, meu pai, e que me tem feito casa, como tinha dito, que hoje morrerá Adonias. E enviou o rei Salomão pela mão de Benaia, filho de Joiada, o qual deu sobre ele, e morreu" (1 Reis 2).
As conexões:
A usurpação da posição de governo:
"Do SENHOR é a terra e a sua plenitude, o mundo e aqueles que nele habitam" (Salmos 24).
"E o diabo, o levando a um alto monte, mostrou a ele, num momento de tempo, todos os reinos do mundo. E disse a ele o diabo: Darei a ti todo este poder e a sua glória, porque a mim me foi entregue, e o dou a quem quero. Portanto, se tu me adorares, tudo será teu" (Lucas 4.5 a 7).
A resolução do código no juízo do Diabo perpetrado pelo Messias, o Filho de Davi:
"...julgará com justiça os pobres, e repreenderá com equidade os mansos da terra... e com o sopro dos seus lábios matará o ímpio" (Isaías 11.4).
"...E o D'us de paz esmagará em breve Satanás debaixo dos vossos pés" (Romanos 16.20).
Muito bem. Poderíamos ainda mencionar algumas características que conectam esses contextos, como, por exemplo, o fato de Adonias ter assumido aquele papel na representação temporal e histórica, sendo ele o filho mais velho que Salomão. Isso, considerada a conexão direta com o contexto do antagonismo entre o Logos divino e o Querubim Pecador, evidencia a permanência do "novo homem" em relação ao "velho homem". O Logos, como recebedor do Reino do Pai Eterno, e o Anjo Pecador, como o ocupante ilegítimo da posição de domínio e governo.
Esse cenário nos remete também à conclusão da impossibilidade de coexistência dos dois entes na mesma posição no Reino. Para que um ocupe o lugar de governo, necessariamente terá que ocorrer a morte do outro. Razão esta pela qual também vemos que Caim mata Abel, por este representar o sacrifício, e Salomão mata Adonias, por aquele representar o Rei que, nesta condição, não recebe mais a interferência da morte, assim como o Logos divino, enquanto rei, vive para sempre.
3. Os eventos após o Êxodo e suas repetições
3.1 Os níveis macro, meso e micro
Agora, vejamos o vínculo lógico entre o que estamos dizendo e nossas vidas particulares.
Analisando a realidade e a Bíblia, podemos identificar três níveis em que as realidades da Eternidade se mostram na dimensão física da Criação (a Terra). São eles os níveis macro, meso e micro.
No nível macro, temos a representação direta da relação da dimensão celestial com a dimensão física. No nível meso, uma representação intermediária, como o próprio termo sinaliza, em que é possível observar as características da dimensão macro num contexto mais coletivo na Terra. Já no nível micro, temos, à semelhança de um fractal, as mesmas informações codificadas numa relação individual e particular. E é aqui que a mensagem deste texto começa a fazer mais sentido.
Para exemplificação, tomemos três personagens: D'us (o Rei do Universo), o rei de Israel e um homem como marido. Nos três níveis encontramos um alinhamento característico desses seres. Por isso, enquanto D'us se manifesta como o Rei de todo o Universo (Céus e Terra) numa perspectiva macro, o rei de Israel (que pode ser, no caso, Davi, como exemplo) seria a representação desse mesmo "código" em nível "meso", digamos assim. Já um homem em sua relação marital permite, em tese, a observação "mais de perto" deste mesmo código presente em toda a Criação, integrando, por isso, o nível micro em toda a revelação da Existência.
Muito bem. Considerando esse raciocínio e tudo o que já expusemos, podemos verificar no nível pessoal (micro) as mesmas influências demonstradas pelo povo de Israel, por exemplo, no nível meso. Estas, por seu turno, representam também a manifestação de episódios e eventos ocorridos na Eternidade pré-cronológica.
3.2 A trajetória do povo como arquétipo
Diante dessa compreensão, podemos perceber que o que ocorre na dimensão física da Existência tem a capacidade de servir como um arquétipo para o futuro e para os eventos que ele há de manifestar.
Ora, Salomão foi um que deixou isso claro em suas reflexões:
"O que foi, isso é o que há de ser; e o que se fez, isso se tornará a fazer; de modo que nada há novo debaixo do sol. Há alguma coisa de que se possa dizer: Vê, isto é novo? Já foi nos séculos passados, que foram antes de nós. Já não há lembrança das coisas que precederam; e das coisas que hão de ser também delas não haverá lembrança, nos que hão de vir depois" (Eclesiastes 1.9 a 11).
Bem, podemos também concluir aqui que a preservação da memória é o fator mais influente na decisão do Eterno de construir uma estrutura como a que vivemos nessa dimensão da Criação. Ou seja, tudo tende à repetição ao longo das eras e gerações, de modo que o tempo, por si só, não é capaz de anular a forte influência da Eternidade.
Ainda falando da arquetipia dos eventos bíblicos passados, veja o que declara o apóstolo:
"Ora, irmãos, não quero que ignoreis que nossos pais estiveram todos debaixo da nuvem; e todos passaram pelo mar, e todos foram batizados em Moisés, na nuvem e no mar, e todos comeram de um mesmo manjar espiritual, e beberam todos de uma mesma bebida espiritual, porque bebiam da pedra espiritual que os seguia; e a pedra era Cristo. Mas D'us não se agradou da maior parte deles, pelo que foram prostrados no deserto. E essas coisas foram feitas para nós em figura, para que não cobicemos as coisas más, como eles cobiçaram. Não vos façais, pois, idólatras, como alguns deles; conforme está escrito: O povo se assentou a comer e a beber e se levantou para folgar. E não nos prostituamos, como alguns deles fizeram e caíram num dia vinte e três mil. E não tentemos a Cristo, como alguns deles também tentaram e pereceram pelas serpentes. E não murmureis, como também alguns deles murmuraram e pereceram pelo destruidor. Ora, tudo isso lhes sobreveio como figuras, e estão escritas para aviso nosso, para quem já são chegados os fins dos séculos" (1 Coríntios 10.1 a 11).
"...está escrito que Abraão teve dois filhos, um da escrava e outro da livre. Todavia, o que era da escrava nasceu segundo a carne, mas o que era da livre, por promessa, o que se entende por alegoria; porque estes são os dois concertos: um, do monte Sinai, gerando filhos para a servidão, que é Agar. Ora, esta Agar é Sinai, um monte da Arábia, que corresponde à Jerusalém que agora existe, pois é escrava com seus filhos. Mas a Jerusalém que é de cima é livre, a qual é mãe de todos nós" (Gálatas 4.22 a 26).
Portanto, perceba, caríssimo leitor, como a compreensão plena dos eventos passados descritos nas Escrituras leva em consideração esse caráter peculiar que os acontecimentos manifestados na dimensão física da Criação têm: todos representam, em diferentes graus, a materialização de ocorrências da Eternidade pré-cronológica, a ponto de servirem como arquetipia para os eventos futuros que manifestarão as mesmas ocorrências passadas (eternas e históricas), porém, sob novos cenários e contextos.
Tendo tudo isso em mente, podemos chegar a um melhor entendimento de nossos próprios contextos particulares, por intermédio da captura das nuances e dos registros ocorridos no passado relatado na Bíblia.
Perceba: se compreendermos, assim como o escritor da epístola aos Coríntios e da epístola aos Gálatas, nossa conexão direta e pessoal com eventos ocorridos milênios antes da vinda de Cristo, por exemplo, então poderemos chegar à conclusão de que a origem e o destino daquele povo também representam o destino pensado pelo Criador para nós.
Toda essa construção que estamos fazendo é para demonstrarmos a sequência lógica que fundamenta o entendimento de que, sim, assim como o povo de Israel, temos todos um deserto a atravessar. E isso é mais do que um recurso retórico ou poético. Refere-se à realidade da trajetória de quem está a caminho do cumprimento da promessa feita a Abraão, a Isaque e a Israel: o reinado do Messias sobre tudo e todos.
4. Deserto: onde a vida se transforma
Pois bem. Agora que estamos de posse das principais premissas lógicas necessárias para esta nossa reflexão, devemos deslocar nosso olhar para os fenômenos que envolvem todo o processo que ocorre no deserto da Existência.
4.1 O que o Deserto é?
Deserto é traduzido do hebraico "midbar", que vem de uma raiz que significa "falar", "declarar", "conversar", "comandar", "prometer". Por isso, esse ambiente é frequentemente escolhido pelo Criador para a manifestação de sua palavra e da revelação divina.
No Deserto se encontra o oposto do que se tinha no Jardim. A escassez quase absoluta também tem um propósito: o de revelar o coração do povo e a vontade de D'us. Sobre isso, vejamos o que diz o livro de Deuteronômio:
"Todos os mandamentos que hoje vos ordeno guardareis para os fazer, para que vivais, e vos multipliqueis, e entreis, e possuais a terra que o SENHOR jurou a vossos pais. E te lembrarás de todo o caminho pelo qual o SENHOR, teu D'us, te guiou no deserto estes quarenta anos, para te humilhar, para te tentar, para saber o que estava no teu coração, se guardarias os seus mandamentos ou não. E te humilhou, e te deixou ter fome, e te sustentou com o maná, que tu não conheceste, nem teus pais o conheceram, para te dar a entender que o homem não viverá só de pão, mas que de tudo o que sai da boca do SENHOR viverá o homem" (Deuteronômio 8.1 a 3).
Portanto, é no isolamento do deserto, onde ocorre o apagar das faíscas de distrações deste mundo, que conseguimos realmente contemplar nosso próprio coração e o que é revelado pela palavra de D'us.
4.2 Os processos no Deserto
4.2.1 A relação entre o Criador e as criaturas
Outra peculiaridade revelada pelo deserto é o tipo de relação que é estabelecida entre o Criador e nós. Perceba como o povo foi tratado nesta relação:
"E sucedeu que, no ano quadragésimo, no mês undécimo, no primeiro dia do mês, Moisés falou aos filhos de Israel, conforme tudo o que o SENHOR lhe mandara acerca deles (...) no deserto, onde viste que o SENHOR, teu D'us, nele te levou, como um homem leva seu filho, por todo o caminho que andastes, até chegardes a este lugar" (Deuteronômio 1).
"(...) Nunca se envelheceu a tua veste sobre ti, nem se inchou o teu pé nestes quarenta anos. Confessa, pois, no teu coração que, como um homem castiga a seu filho, assim te castiga o SENHOR, teu D'us" (Deuteronômio 8.4 e 5).
Toda a revelação de D'us para com o povo e toda a Criação parte dessa relação: a de paternidade e filiação.
O Criador de tudo se manifesta e se revela na Existência como pai. E isso é capaz de dar sentido a todas as ações e fatos que percebemos ao longo da narrativa bíblica.
4.2.2 Os filhos do Pai
O que fica claro no texto de Deuteronômio é a elevação do povo que sai do Egito à condição de herdeiros de D'us, por meio da atribuição de filiação eterna.
Teríamos muitos pontos a considerar em torno desse contexto. Mas o que me chamou mais a atenção é a relação da promessa de uma terra que mana leite e mel a um contingente que está sendo elevado ao patamar de filhos de D'us.
"Então, dirás a Faraó: Assim diz o SENHOR: Israel é meu filho, meu primogênito. E eu te tenho dito: Deixa ir o meu filho, para que me sirva; mas tu recusaste o deixar ir; eis que eu matarei a teu filho, o teu primogênito" (Êxodo 4.22 e 23).
Pois bem. Quando consideramos o sentido da preservação da família de Jacó no Egito e a contemplação do contingente que dali saiu, a metáfora da gestação se encaixa como uma luva.
Essa metáfora é profunda e amplamente respaldada por teólogos e historiadores bíblicos. O Egito funcionou como um útero para o povo de Israel, onde uma pequena família entrou e, após um período de gestação doloroso, nasceu como uma grande nação.
Ora, essa visão de um nascimento imediato foi declarada em outro ponto da Bíblia:
"Quem jamais ouviu tal coisa? Quem viu coisas semelhantes? Seria possível fazer nascer uma terra em um só dia? Nasceria uma nação de uma só vez? Mas Sião esteve de parto e já deu à luz seus filhos" (Isaías 66.8).
Vejamos como a história do Êxodo se conecta perfeitamente a essa analogia de gestação e parto:
A Entrada no Útero (A Semente): Quando a família de Jacó desceu para o Egito por causa da fome, eles eram apenas 70 pessoas (Gênesis 46.27). O Egito funcionou como um ambiente protegido e isolado (o útero), ideal para que aquela pequena semente familiar crescesse e se multiplicasse sem se misturar com outros povos, já que os egípcios detestavam os pastores de ovelhas (Gn.46.34).
O Período de Gestação e as Dores de Parto: Com o passar dos séculos, os israelitas cresceram em número e foram escravizados. O sofrimento sob o chicote de Faraó representa o final da gravidez, onde o espaço se torna apertado e desconfortável. O clamor do povo a D'us por libertação equivale às dores de parto. O sofrimento era o sinal de que o tempo de romper o útero havia chegado.
O Rompimento da Bolsa e o Nascimento: O momento do Êxodo é o nascimento propriamente dito. Quando D'us envia as pragas, Ele está forçando a saída do "bebê". O clímax do nascimento ocorre na travessia do Mar Vermelho. Ao passar pelas águas divididas, Israel estava literalmente passando pelo canal de parto. Do outro lado do mar, na praia do deserto, eles deixaram de ser um grupo de escravos e nasceram, em um único dia, como uma nação livre e soberana sob a aliança com D'us.
Novamente, é possível fazermos essa conexão do processo de entrada e saída do povo de Israel do Egito com o fenômeno da gestação (que ocorre pessoalmente com uma mulher), devido ao vínculo entre os elementos que integram todo esse cenário. Em outras palavras, o contexto do povo no Egito representa uma veiculação do Código eterno em nível meso, enquanto uma gravidez representa a manifestação do mesmo código em nível micro. Todavia, não nos deteremos aqui. Vamos prosseguir, indo um pouco além.
4.2.3 O leite e a Palavra
A questão toda aqui gira em torno de que este filho que havia acabado de nascer do Egito teve a promessa de uma terra que mana leite e mel.
Ora, o leite é universalmente reconhecido como o primeiro e mais importante alimento a se dar a um bebê ao nascer.
Mas, quando falamos em alimento, retornamos ao ponto anterior, em que o Eterno está falando abertamente que (no deserto) Ele, embora tenha sustentado o povo com o maná, os deixou ter fome para que fosse revelado o que estava verdadeiramente em seus corações, e para que eles aprendessem que "nem só de pão vive o homem, mas de toda a palavra que sai da boca de D'us!".
E aqui retornamos também ao sentido central do Deserto: a palavra, a fala e a boca.
Veja como todas essas coisas se relacionam, caro leitor. O Eterno leva o povo num momento em que naturalmente eles precisariam de leite, promete esse leite, mas os deixa num ambiente de escassez extrema, afirmando categoricamente que o verdadeiro alimento para eles seria a palavra de D'us. Ou seja, aqui temos um código complexo.
Perceba: se Ele, em lugar de dar "leite", deu Sua palavra, então podemos concluir que aquele é uma representação, em certo sentido, desta.
Mas vamos nos lembrar da promessa. Ele havia dito que os levaria a uma terra que mana leite e mel.
Ora, sabemos que o elemento "leite" não é produzido da terra diretamente, mas é o resultado do processamento (por parte de seres vivos) de nutrientes que a terra fornece a eles.
Diante disso, considerando a relação estabelecida pelo próprio Criador entre alimento (algo físico e material) e a Sua palavra (algo espiritual), podemos chegar à conclusão de que todo o simbolismo que estava associado à promessa de uma terra abundante tratava mais de realidades espirituais e eternas do que de uma mudança de condição material de existência.
Por isso, na somatória de elementos integrantes da dimensão física com elementos que integram a dimensão do reino do Espírito, o resultado equivale à compreensão de que, ao tratar de um assunto, D'us, em sua infinita sabedoria, estava tratando de outro ainda mais profundo.
Assim, enquanto Ele prometia "uma terra que mana leite e mel", estava, na verdade, apostando na percepção do povo de que aquele leite era uma representação para a Sua própria palavra, a qual serve de nutriente para aquele que acaba de nascer espiritualmente.
Isso é tão verdade que estes textos deixam claras algumas informações a esse respeito, veja:
"Deixando, pois, toda malícia, e todo engano, e fingimentos, e invejas, e todas as murmurações, desejai afetuosamente, como meninos novamente nascidos, o leite racional, não falsificado, para que, por ele, vades crescendo, se é que já provastes que o Senhor é benigno" (1 Pedro 2.1 a 3).
"...qualquer que ainda se alimenta de leite não está experimentado na palavra da justiça, porque é menino. Mas o mantimento sólido é para os perfeitos, os quais, em razão do costume, têm os sentidos exercitados para discernir tanto o bem como o mal" (Hebreus 5.13 e 14).
"E eu, irmãos, não vos pude falar como a espirituais, mas como a carnais, como a meninos em Cristo. Com leite vos criei e não com manjar, porque ainda não podíeis, nem tampouco ainda agora podeis" (1 Coríntios 3.1 e 2).
4.2.4 A terra e o leite
Voltemos à questão da produção do leite. Considerando que o elemento "leite" não nasce, como dissemos, diretamente da terra, mas é o resultado de um processamento produzido por um ser vivo (uma mulher, por exemplo), e que o Criador está dizendo que a terra da promessa manaria leite, então devemos reconhecer um código nessa mensagem.
Veja: se compreendermos que Ele está prometendo uma terra que mana leite, e que este seria precisamente o alimento de que necessitava o povo de Israel que acabara de nascer, ao disponibilizar (em lugar de leite) a Sua palavra, D'us estava indiretamente comunicando que a Sua palavra serviria como esse alimento inicial para este "bebê" espiritual.
Agora, pense mais comigo. Se contemplarmos aquela terra como uma expressão direta da condição do povo, chegaremos à conclusão de que aquele povo era a verdadeira terra da qual emanaria leite aos novos filhos que ainda haveriam de nascer.
Perceba a sutileza deste código, caro leitor. Aquela "terra da promessa", na verdade, era o próprio povo. Porque o leite advém de um ser vivo e, ao mesmo tempo em que o povo está sendo nomeado como filho na relação com D'us, Israel também é, coletivamente, nomeada (bíblica e profeticamente) nas Escrituras como a esposa do Criador, veja:
"Vai, pois, e apregoa estas palavras para a banda do Norte, e dize: Volta, ó rebelde Israel, diz o SENHOR (...) Convertei-vos, ó filhos rebeldes, diz o SENHOR; porque eu sou o vosso esposo e vos tomarei, um de cada cidade e dois de cada família, e vos levarei a Sião" (Jeremias 3.12 e 14).
"Eis aí vêm dias, diz o SENHOR, em que firmarei nova aliança com a casa de Israel e com a casa de Judá. Não conforme a aliança que fiz com seus pais, no dia em que os tomei pela mão, para os tirar da terra do Egito; porquanto eles anularam a minha aliança, não obstante eu os haver desposado, diz o SENHOR" (Jeremias 31.31 e 32).
Portanto, note bem que a complexidade do código que está sendo revelado por meio da atuação do Criador com o povo de Israel concatena diferentes elementos para a resolução.
Assim, enquanto nomeado como um "filho que acaba de nascer", temos a sinalização da condição inicial do povo de Israel na participação de sua relação com D'us. Já como mulher e noiva, a nação de Israel é posta como uma demonstração de como o Criador deseja trabalhar a partir dela: como um veículo de nutrição dos novos filhos que, a partir da relação dela com o Criador, surgiriam no futuro.
QUADRO COMPARATIVO:
Outro ponto que compõe todo esse código e respalda a lógica desse raciocínio é a condição humana. Ora, o homem foi "feito do pó da terra" (Gn.2.7), e por isso é uma expressão dela. Isso nos permite compreender que, neste código complexo de surgimento da nação a partir da libertação de um povo, os elementos "terra" e "seres humanos" ali se encontram intimamente conectados. Tanto que, enquanto o Criador falava sobre a terra da promessa, necessariamente também falava do povo, ao mesmo tempo.
Todo o fundamento lógico desse raciocínio está na criação do homem. D'us fez o homem do pó da terra e lhe deu vida, demarcando assim a posição de Adão como um expoente, um representante, um símbolo para toda a terra da qual havia sido retirado. Além disso, vemos que, quando Adão peca, toda a terra recebe a condenação de maldição.
"E a Adão disse: Visto que atendeste a voz de tua mulher e comeste da árvore que eu te ordenara não comesses, maldita é a terra por tua causa; em fadigas obterás dela o sustento durante os dias de tua vida" (Gênesis 3.17).
Portanto, novamente, Israel (enquanto povo) é tratado como o filho que acabou de nascer, e (enquanto nação) é tratada como uma esposa na relação com o Criador.
Importa, ainda ressaltar que (com a finalidade de eliminação de qualquer dúvida a respeito da conexão íntima entre os elementos "terra" e "homem", na sinalização profética da Bíblia) o que dissemos há pouco sobre a terra ser uma "expressão direta da condição do povo" em sua relação com o Criador está nitidamente demonstrado até mesmo na estrutura da "verdadeira terra da promessa": a Nova Jerusalém. Nela encontram-se gravados os nomes dos apóstolos do Cordeiro(Ap.21.14), dos doze filhos de Jacó(Ap.21.12), além de, numericamente, sinalizar para todo o contingente de salvos(Ap.21.17).
Ora, não por acaso, considerando todas essas coisas, ela também foi expressamente nomeada como "a esposa do Cordeiro", pelo anjo que declarava a mensagem a João. Veja:
"E eu, João, vi a Santa Cidade, a nova Jerusalém, que de Deus descia do céu, adereçada como uma esposa ataviada para o seu marido. (...) veio um dos sete anjos que tinham as sete taças cheias das últimas sete pragas e falou comigo, dizendo: Vem, mostrar-te-ei a esposa, a mulher do Cordeiro." (Ap.21.2; 9).
5. Nossa perspectiva individual na relação com o Criador
Nós, individualmente (digo, os que fazem parte desta família), somos os que colhemos todas as influências do que ocorreu na Eternidade e ao longo da trajetória do povo de D'us, do qual fazemos parte devido à obra da cruz.
Enquanto aquele deserto se manifesta em nossa jornada, inicialmente recebemos o tratamento de filhos que acabaram de nascer, expulsos do útero deste mundo para uma convivência direta com a palavra de D'us.
Não obstante, coletivamente fazemos parte de um organismo maior. Integramos um corpo que é revelado na figura de uma esposa para o seu marido, que não é outro senão o próprio Criador.
Enquanto expressões individuais de todo esse código, revelamos a característica de nutrição àqueles que, a partir de nós, terão contato com as verdades da palavra de D'us. E é precisamente por isso que devemos considerar que o processo de compartilhamento da palavra de D'us, ao qual fomos comissionados pelo Rei, se constitui na revelação (num universo microscópico) do Código de alimentação originado na Eternidade e que se manifesta por toda a Existência.
5.1 A "pasteurização" no Deserto
Talvez, a essa altura, você já possa estar conectando os pontos sobre o que dissemos e o título deste texto, ou mesmo questionando o motivo de sua escolha. Afinal, o que tem a ver o processo de pasteurização e a trajetória do povo no deserto com nossa vida particular?
Bem, considerando toda a representação que vislumbramos na realidade em que estamos inseridos, acredito que compreender alguns processos que envolvem a fabricação e a disponibilização para o consumo do elemento "leite" amplificará a revelação sobre a trajetória de mudança pela qual todos nós passamos ao longo de nossa jornada aqui nesta dimensão.
O processo de pasteurização do leite é um tratamento térmico essencial que consiste no aquecimento do leite a uma temperatura específica por um determinado tempo, seguido de um resfriamento rápido. Criado pelo químico francês Louis Pasteur em 1862, o método tem como objetivo principal eliminar 100% das bactérias patogênicas (que causam doenças) e reduzir drasticamente a microbiota comum do alimento, aumentando sua vida útil sem alterar significativamente seus nutrientes.
Mas o que isso tem a ver com nossa trajetória?
Estamos todos num processo de mudança. Falo aqui, especialmente, àqueles que compreenderam o chamado divino e optaram por caminhar em direção ao Reino vindouro, apregoado pelas Escrituras.
Durante nossa peregrinação, enquanto estamos sendo transformados, como diz o Evangelho: "de glória em glória, na imagem do Filho"(2Cor.3.18), também ouvimos o chamado para "fazer discípulos de todas as nações" (Mateus 28.19).
Isso significa que, durante todo esse processo, não apenas estamos crescendo e amadurecendo. Também estamos compartilhando, instruindo e alimentando outros com a Palavra que sai da boca de D'us.
Ora, já vimos que esta palavra é, comparativamente, distribuída como leite, inicialmente, aos que recebem o Evangelho. E é visando precisamente os resultados de todo esse processo que o deserto se torna, para além de um simples momento, uma necessidade inafastável da evolução em direção à Plenitude.
Dito de outra forma, temos na realidade física uma representação de como as coisas funcionam na dimensão espiritual de nossa atuação aqui na Terra.
Isso significa concluir que, assim como o processo de disponibilização do leite físico demanda uma intervenção direta, a fim de que este permaneça como um produto saudável para o consumo humano, também precisamos experimentar (cada um de nós, pessoalmente) intervenções em nossa caminhada que somente o deserto poderá proporcionar.
Como vimos, o processo de pasteurização do leite é um tratamento térmico essencial que consiste no aquecimento do leite a uma temperatura específica por um determinado tempo. Isso nos ensina como não é mera coincidência o nosso deslocamento nesta terra (à semelhança da caminhada do povo emigrante do Egito) ocorrer "num ambiente cuja temperatura do chão chega a espantosos 70 °C ou 80 °C!"
No Deserto da Arábia, por exemplo (local da travessia do povo), a temperatura máxima do ar sob o sol atinge rotineiramente entre 40 °C e 50 °C no verão, com picos extremos que podem chegar a 55 °C em algumas áreas.
No entanto, é fundamental separar a temperatura do ar (medida à sombra pelos meteorologistas) da temperatura da superfície do solo exposta diretamente ao sol. Como a areia e as rochas absorvem o calor intensamente e não há nuvens para filtrar a radiação, o chão do deserto vira uma verdadeira chapa quente.
Curiosamente, assim como no processo de pasteurização o leite, após a elevação da temperatura, segue para um resfriamento rápido, em contraste total com o calor brutal, os desertos perdem energia muito rápido. Devido à falta de umidade e nuvens para reter o calor na atmosfera, as noites são frias e a temperatura pode despencar para perto de 0 °C no inverno.
É preciso ressaltar que a experiência do povo no deserto foi marcada pela intervenção direta do Criador também no quesito "temperatura", pois aqueles emigrantes foram acompanhados, em todo tempo, por uma nuvem de resfriamento durante o dia, e por uma coluna de fogo, que também serviu para aquecimento durante a noite (Êxodo 13.21 e 22), o que, literalmente, reduziu consideravelmente os efeitos imediatos do calor e do frio sobre aquele povo.
Todavia, o deslocamento da realidade histórica vivida por aqueles peregrinos para uma perspectiva de análise espiritual do evento, como a que estamos fazendo, demonstra que o sentido do aquecimento e do resfriamento (assim como na preparação do leite) em nossas vidas é comunicado a nós hoje por meio das tribulações e dificuldades que enfrentamos, e dos momentos de "bonança" que experimentamos.
Todas as vezes em que nos deparamos com momentos e condições desagradáveis em nossa jornada, estamos diante de um dos estágios de nosso "processo individual de pasteurização". Nele, aquelas "bactérias patogênicas", capazes de causar doenças no "alimento" ("leite", ou seja, a "Palavra") que disponibilizamos aos que nasceram de novo no Evangelho, começam a ser tratadas de tal modo que, ao nos vermos numa situação de bonança posterior ("resfriamento"), a qualidade de nossa produção é nutritiva, saborosa e tão durável quanto a Eternidade.
O Deserto é o lugar natural para que as distrações sejam apagadas, restando somente o que verdadeiramente importa: nosso crescimento na relação com o Criador e o cumprimento de nossa função para com toda a Criação.
Infelizmente (ou não), não há como, em outro lugar, termos o mesmo tipo de tratamento do qual necessitamos para a "extirpação das impurezas" do que iremos produzir. Nós já estivemos no Jardim. E lá não soubemos cumprir nossa missão. Agora, precisamos evoluir. E cada passo nessa jornada é um elemento danoso a menos que chegará a outro alguém. Por isso, confie no Criador e em seus processos de "aumento de temperatura" e de consequente "resfriamento" do que Ele quer verdadeiramente extrair de nós.
Shalom! 🌾




Baul de Souza é escritor e autor do Blog horadoapc.com.br.
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