D'us compartilhou a Torá, o Diabo fez o Estado

Será que o anarcocapitalismo, o jusnaturalismo e o modelo de sociedade pós-êxodo têm algo em comum? O Estado Moderno é uma necessidade ou uma ficção que nos afasta do projeto original do Criador? Confira comigo neste artigo.

ESTADO E POLÍTICA

Baul de Souza

11/13/202518 min read

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D'us compartilhou a Torá, o Diabo fez o Estado.

Um ensaio bíblico sobre a liberdade original e a gênese da coerção institucional.

Eu me deparei recentemente, quase por acidente, com um vídeo de um youtuber anarcocapitalista. Ele defendia, com uma lógica fervorosa, um sistema social sem um Estado central. Um sistema baseado no que ele chamava de Princípio da Não Agressão (PNA) e no direito absoluto à propriedade privada. Enquanto eu o ouvia descrever uma sociedade de agências de lei privadas, contratos voluntários e a rejeição total da coerção estatal, algo em mim estalou.

Não foi uma concordância imediata com a aparente utopia que ele descrevia, mas um insight perturbador, uma sensação de déjà vu espiritual.

Aquele modelo, despido de sua roupagem econômica moderna, soava como um eco distorcido de algo que eu já conhecia. Uma estrutura que eu havia lido não em Murray Rothbard ou Hans Hermann Hoppe, mas em Êxodo (Sh'mot) e Deuteronômio (Devarim).

E se o modelo de sociedade mais radicalmente "livre" já teorizado não for uma utopia futurista, mas uma sombra, uma cópia secularizada de um projeto divino que foi abandonado?

Esta percepção me levou a formular a tese que dá título a este artigo, e que peço que você, leitor, considere com a mente aberta: D'us compartilhou a Torá, o Diabo fez o Estado.

Claro, este título é uma provocação. Precisamos qualificar essa premissa imediatamente. O "Estado" a que me refiro não é qualquer forma de governo ou liderança. Como veremos, o Eterno ungiu Davi, um "homem segundo o seu coração", como Rei, e o próprio Messias reinará como o Grande Rei de Jerusalém (Salmos 48.1 e 2). O "Estado" que o Diabo fez é um ente específico: o Estado Moderno secularizado, nascido de uma filosofia de rebelião, que se coloca no lugar de D'us.

Este texto é uma jornada filosófica e bíblica. Vamos explorar como a sociedade humana foi originalmente desenhada para a liberdade sob uma "regulação global" divina, e como a criação deste Estado Moderno, essa entidade que hoje nos parece tão natural e inevitável, é, na verdade, uma ficção. Uma convenção social que representa não a ordem, mas o ápice de um desvio histórico, uma escolha pela servidão visível em detrimento da liberdade responsável.

I. O Design da Liberdade: A Ordem Sem Centro

Para entender o que perdemos, precisamos primeiro entender o que nos foi dado.

Quando pensamos no "sistema mosaico", geralmente nos vêm à mente as minúcias dos sacrifícios ou as proibições alimentares. Mas raramente analisamos a sua estrutura sociopolítica. E é aqui que a primeira peça do nosso enigma se encaixa.

O sistema instituído pelo Eterno e apregoado por Moisés não era uma monarquia, nem uma democracia e nem sequer uma república. Era uma teocracia. Mas, politicamente, era algo que hoje chamaríamos de anarquia ordenada.

Vamos analisar os pilares:

1. A "Constituição" Imutável: A Torá

A primeira característica é a mais importante. A Lei não era criada por homens. Ela não era o produto de um congresso, de um rei ou de um debate popular. A Lei foi dada.

A Torá funcionava como uma "Constituição" imutável, um conjunto de princípios universais que regulava tudo, desde a propriedade (o sistema de jubileu) até a justiça (o "olho por olho", um princípio de proporcionalidade) e as relações sociais. O papel dos homens não era legislar, mas aplicar uma Lei que já existia e era transcendente.

2. A Jurisdição Descentralizada: O Sistema de Jetro

O segundo pilar é a sua estrutura de "governo", e ela é fascinante. Em Êxodo 18, Jetro, o sogro de Moisés, o observa ser esmagado pela demanda de julgar todas as causas do povo. Ele então oferece o conselho que estruturaria a sociedade hebraica por séculos:

"Procura dentre o povo homens capazes... e os coloque sobre eles por chefes de mil, chefes de cem, chefes de cinquenta e chefes de dez; para que julguem este povo em todo o tempo. E seja que toda causa grave tragam a ti, mas toda causa pequena eles mesmos julguem..." (Êxodo 18.21 e 22).

O que Jetro desenhou ali? Um sistema de governança policêntrico e descentralizado, que também podemos considerar como o embrião do que a teoria jurídica nomeia atualmente como jurisdição.

Não havia um "Ministério da Justiça" centralizado. Não havia uma "polícia federal". As disputas eram resolvidas no nível mais local possível: a família, o clã (os chefes de 10, 50...). Apenas as questões mais complexas e graves (as "apelações") subiam a hierarquia, chegando eventualmente a Moisés e, mais tarde, aos sacerdotes ou juízes principais.

Era um sistema de autorregulação social, onde a responsabilidade era primariamente individual e familiar, balizada por um código legal claro e universal (a Torá).

3. O Foco no Indivíduo

Este sistema só faz sentido quando percebemos o padrão do Criador. O Eterno não começa seus projetos pelo coletivo; Ele começa pelo indivíduo.

Ele não criou uma "humanidade"; Ele criou Adão. A partir do indivíduo, formou o casal. Do casal, a família. Da família, as tribos. O coletivo, na visão divina, é uma consequência da união voluntária de indivíduos regenerados, e não uma entidade que paira acima deles e os esmaga.

Vemos esse padrão em todo lugar. A salvação, por exemplo, não é um processo coletivo, mas um processo individual (a fé pessoal) que resulta em um alcance coletivo (a Igreja). O juízo divino (isto é, o final e, especialmente, o Tribunal de Cristo), antes de ser uma avaliação de "nações", consistirá num tratamento individualizado, onde "cada um de nós dará contas de si mesmo a D'us" (Romanos 14.12).

O sistema original da Torá respeitava isso. Ele colocava a responsabilidade moral e legal no indivíduo, e não a terceirizava para uma entidade abstrata chamada "Estado".

II. A Queda na Servidão Voluntária: O Pedido por um Rei

Aquele sistema de liberdade responsável, no entanto, era difícil. Ele exigia que cada homem fosse responsável por si, por sua família e por seu próximo perante D'us.

E então, o povo cansou.

O ponto de inflexão da história política de Israel (e, ouso dizer, da humanidade) está registrado em 1 Samuel 8. O povo chega ao profeta Samuel e faz um pedido que soa como uma sentença:

"Constitua para nós, pois, agora um rei, para que ele nos julgue, como têm todas as nações" (1 Samuel 8.5).

Aqui está a ponta solta que precisamos atar. O pecado do povo não foi pedir uma estrutura de governo monárquica, representada pela figura de um rei. Afinal, o próprio D'us estabeleceria, mais tarde, o reinado de Davi e, futuramente, o Reinado Milenar do Messias.

O pecado real (ignorando o trocadilho) foi a motivação por trás do pedido.

Eles não pediram um rei para melhor servir ao Eterno. Eles pediram um rei para serem como todas as nações pagãs. Foi um ato de rebelião, conformidade e também de assimilação cultural. Foi a busca por uma solução humana (um homem visível, um trono, um exército) para um problema que era fundamentalmente espiritual: o descumprimento da Aliança e o afastamento do coração de D'us.

Eles queriam um Leviatã visível. Um homem que fosse o símbolo de seu poder, que lutasse suas guerras por eles e, o mais importante, que tomasse as decisões por eles.

A resposta de D'us a Samuel é uma das passagens mais devastadoras da Bíblia:

"Ouve a voz do povo... porque não te têm rejeitado a ti, antes a mim me têm rejeitado, para eu não reinar sobre eles" (1 Samuel 8.7).

O Eterno viu além da palavra "rei". Ele viu o desejo por um Estado centralizado, nos moldes do Egito, de Babel na terra de Sinar, ou da Babilônia imperialista, como o ato final de rejeição da sua soberania direta. Era a troca da autonomia responsável sob D'us pela segurança infantil sob um Homem.

E D'us, como que para selar a tolice da escolha, os adverte exatamente sobre o que esse "diabo" (essa ideia de Estado secular) faria. O rei, Ele disse, irá (1Sm.8.9-22):

  • Tomar vossos filhos (para o exército e para o serviço compulsório);

  • Tomar vossas filhas (para seus afazeres);

  • Tomar vossos campos, vinhas e olivais (impostos sobre a propriedade);

  • Tomar a dízima de vossas sementes (imposto de renda e produção);

  • Tomar vossos servos e vosso gado (confisco de bens);

  • E vós mesmos lhes servireis de escravos.

Esta é a descrição perfeita e atemporal da natureza do Estado coercitivo. O Estado não cria; ele toma. Sua única ferramenta é a coerção. E sua fome por regulação e controle, como D'us advertiu e a história provou, não tem fim.

Aqui nasce um princípio que quero que você memorize: Quanto mais a humanidade se afasta da Torá (a ordem moral divina), mais o Estado (a coerção humana) precisa crescer.

A deterioração das relações sociais, a perda da moralidade interna e o abandono da responsabilidade individual criam um vácuo. E o Estado, o Leviatã, se apresenta como o salvador, preenchendo esse vácuo com mais leis, mais regulação e mais coerção.

III. Ecos da Ordem: A Lógica AnarcoCapitalista e a Lei Natural

Foi exatamente nesse ponto da minha reflexão que o vídeo do youtuber anarcocapitalista voltou à minha mente. O que ele estava propondo era, em essência, uma tentativa humana e secular de retornar aos lampejos do "Jardim do Éden" político de 1 Samuel 7 (a era antes do rei secular).

Para melhor compreensão sobre o que estou dizendo, precisamos fazer uma pausa e entender o que é, de fato, o Anarcocapitalismo (AnCap). Não como uma caricatura, mas como uma filosofia séria.

O Anarcocapitalismo, como sistema filosófico, é a fusão de duas grandes escolas de pensamento:

  1. A Escola Austríaca de Economia, que argumenta (através de pensadores como F. A. Hayek) que o conhecimento na sociedade está tão disperso que é impossível para qualquer agência central (como um Estado) planejar eficientemente a economia. A descentralização, portanto, é o caminho mais eficiente.

  1. O Jusnaturalismo, ou a filosofia da Lei Natural.

É no Jusnaturalismo que quero focar, pois ele é a base moral e jurídica do AnCap e a ponte para a nossa análise bíblica.

O que é o Jusnaturalismo?

O Jusnaturalismo é a crença de que existem princípios de justiça que são universais, imutáveis e inerentes à condição humana. Esses princípios são superiores a qualquer lei criada por homens (o Direito Positivo).

Pensadores como Tomás de Aquino, por exemplo, viam uma hierarquia clara: no topo, a Lei Eterna (o modo como D'us governa o cosmos); depois a Lei Divina (revelada nas Escrituras); depois a Lei Natural (a participação da razão humana na Lei Eterna); e, por último, a Lei Humana (feita pelos homens).

Para Aquino, uma Lei Humana que violasse a Lei Natural não era uma lei válida, mas uma "perversão da lei". O Jusnaturalismo, portanto, é a ideia de que podemos, pela razão, descobrir o que é "justo por natureza".

Os Pilares AnCap

1. O Princípio da Não Agressão (PNA)

Os anarcocapitalistas pegam essa ideia do Direito Natural e a condensam em um único e poderoso "mínimo ético": o Princípio da Não Agressão (PNA).

O PNA é definido de forma muito simples: é proibido iniciar violência (ou ameaça de violência) contra a pessoa ou a propriedade de um não agressor.

Note o termo central: iniciar.

  • A violência defensiva é permitida, mas ela deve ser proporcional e ter como objetivo apenas cessar a agressão inicial.

  • O PNA é considerado o "mínimo de regras necessárias" para a convivência pacífica.

2. A Propriedade Privada

De onde vem o direito à propriedade? O AnCap o deriva do Jusnaturalismo através de um conceito central: a autopropriedade.

  1. O argumento (frequentemente associado a Hans Hermann Hoppe) é que cada indivíduo é, inegavelmente, proprietário de seu próprio corpo.

  2. Negar isso enquanto se argumenta é uma contradição performática, pois você estaria usando o seu corpo (sua boca, seu cérebro) para argumentar que você não tem propriedade sobre ele.

  3. Se você é dono do seu corpo, você é dono do seu trabalho (a ação do seu corpo).

  4. Se você aplica seu trabalho a um recurso que não tem dono (homesteading) ou o troca voluntariamente, essa propriedade adquirida é uma extensão do seu corpo.

  5. Portanto, agredir a propriedade de alguém é o mesmo que agredir a pessoa.

A Sociedade AnCap: Ordem Sem Estado

Com base nesses dois pilares (PNA e Propriedade), os anarcocapitalistas argumentam que o Estado é a instituição eticamente ilegítima por excelência.

Por quê? Porque o Estado, por sua própria natureza, viola o PNA.

  • Impostos não são voluntários; são a iniciação de violência (pague, ou será punido ou preso).

  • Leis coercitivas e regulações são uma forma de escravidão, forçando indivíduos pacíficos a agir contra sua vontade.

Na ausência do Estado, eles teorizam que a sociedade se organizaria através de contratos voluntários e Sociedades de Leis Privadas (SLP's). Em vez de um monopólio central, haveria um "mercado" de justiça, onde as pessoas pagariam por proteção e arbitragem.

IV. A Tese: A Torá, o Mercado e o Leviatã

Agora, junte as peças.

De um lado, temos o Sistema do Eterno (Pós-Êxodo):

  • Sem governo central.

  • Uma Lei universal e imutável (Torá).

  • Jurisdição descentralizada (Juízes de 10, 50...).

  • Foco no indivíduo e na responsabilidade.

Do outro, temos a Teoria Anarco-Capitalista:

  • Sem governo central (Estado).

  • Uma Lei universal e imutável (PNA / Lei Natural).

  • Jurisdição descentralizada (SLPs, Árbitros).

  • Foco no indivíduo e na autopropriedade.

O paralelo é inegável. O anarcocapitalismo, em sua busca racional por uma sociedade justa, tropeçou (acredito que sem querer) nos mesmos princípios estruturais que o Eterno instituiu para Israel no deserto. É um eco quase perfeito.

Mas é aqui que vem a "grande sacada". O AnCap é um passo em direção ao design original, mas é um passo incompleto, espiritualmente cego e, portanto, fadado ao fracasso.

O Erro Fatal do Anarcocapitalismo

A filosofia libertária e o Jusnaturalismo colocam sua fé suprema na Razão Humana como o meio de descobrir a Lei Natural.

O problema é que eles ignoram a corrupção dessa mesma razão pelo pecado.

O AnCap falha porque não reconhece o que a Bíblia deixa claro: o problema fundamental da sociedade não é estrutural, é espiritual. Não é o sistema que está quebrado; é o homem.

O Anarcocapitalismo é o sistema perfeito para um mundo de homens perfeitos. Mas ele não tem resposta para o problema do coração humano. Ele não possui o elemento essencial para que qualquer sistema de organização humana dê certo: a transformação interior do indivíduo, por sua reconexão com D'us.

Um sistema que se baseia apenas na lógica racional do PNA não tem poder para impedir que um homem, consumido pela ganância ou inveja, agrida seu vizinho quando achar que pode sair impune. A "Lei Natural" pode dizer que roubar é errado, mas é a "Lei de D'us" inscrita no coração que impede o roubo.

O AnCap é uma casa magnífica, com uma arquitetura impecável, construída sobre a areia movediça da bondade humana. A Torá, ao contrário, é a casa construída sobre a Rocha (Mateus 7.24-25)

V. O "Diabo Fez o Estado": O Leviatã e a Rebelião Moderna

E aqui chegamos ao "Diabo" do nosso título. Se D'us compartilhou a Torá, e se o AnCap é o eco secular dela, o que é o "Estado"?

Como esclarecemos, não é a estrutura do "Reino" de Davi (que operava sob a sanção de D'us) ou do Messias (que é a própria sanção de D'us).

O Estado ao qual nos referimos, aquele que "o Diabo fez", é o Estado Moderno. É a entidade nascida no final do século XVIII, das revoluções perseguidoras de mudanças locais na América e, principalmente, na França, onde a aspiração de universalidade acompanhou a rebeldia. É o governo do homem para o homem, fundado no princípio da rebelião de 1 Samuel 8, mas agora elevado a uma filosofia de Estado: a independência de D'us.

Este Estado Moderno é a obra-prima ideológica do ente que você lerá em meus textos com o nome de "Antigo Querubim".

Não é coincidência que o maior filósofo do absolutismo estatal, Thomas Hobbes, tenha escolhido um nome bíblico para sua criação. Ele a chamou de "O Leviatã".

Quem é o Leviatã na Bíblia? Em Isaías 27, é "a serpente veloz", "o dragão que está no mar". No Apocalipse, o Dragão é identificado sem sombra de dúvida: é o próprio Satanás.

E aqui vale um acréscimo profético. O texto de Isaías 27 declara que o Leviatã é "o dragão que está no mar" ("Naquele dia o Senhor castigará com a sua dura espada, grande e forte, o leviatã, serpente veloz, e o leviatã, a serpente tortuosa, e matará o dragão que está no mar." - Is.27.1). 

Perceba que o elemento "mar", profeticamente, tem a sua tradução em Ap. 17. Veja: "E veio um dos sete anjos que tinham as sete taças e falou comigo, dizendo-me: Vem, mostrar-te-ei a condenação da grande prostituta que está assentada sobre muitas águas, com a qual se prostituíram os reis da terra; e os que habitam sobre a terra se embriagaram com o vinho da sua prostituição. (...) E disse-me: As águas que viste, onde se assenta a prostituta, são povos, e multidões, e nações, e línguas." (Ap.17. 1-2, 15).

Portanto, profeticamente, o elemento "mar" representa precisamente povos, multidões, nações e línguas.

Façamos, então, uma soma. Sabendo que o profeta Isaías declara que o Dragão (Leviatã) "está no mar", logo, podemos concluir que o significado profético do texto poderia ser traduzido como "...e matará o dragão que está nas nações"; ou, ainda: "... matará o leviatã que está nas nações"! 

Ora, diante desse entendimento, considerando o enquadramento das nações da Terra no modelo de "organização", controle e domínio político-social que chamamos de Estado, o acerto da identificação desse ente político como uma estrutura de natureza demoníaca se torna extremamente evidente. 

Hobbes, intencionalmente ou não, revelou a natureza espiritual do Estado Moderno. Ele é a manifestação política e filosófica do Dragão.

Observe seu modus operandi:

  1. Ele se apresenta como Salvador: Oferece segurança e ordem em troca de sua liberdade. (A proposta do Rei em 1 Samuel 8).

  2. Ele exige adoração (lealdade) absoluta: Coloca-se acima da família, da igreja e do próprio D'us. Tenta monopolizar a educação, a moralidade e a justiça.

  3. Ele é um Monopólio: D'us compartilhou a Lei (Torá) e a jurisdição (Juízes). O Diabo monopoliza a lei, a justiça e, crucialmente, a violência.

Sem contar, caro leitor, que a questão dos impostos é uma evidente apropriação indébita. Aliás, é mais que isso: É um roubo descarado "à luz do dia". Digo isso por um motivo muito simples: dentro do que estamos abordando aqui, o contexto correto de contribuições digamos "pecuniárias" foi originalmente introduzido na realidade humana para que o sistema de representação divina na Terra (no caso, o Templo/Tabernáculo) fosse integralmente mantido.

Ou seja: o dinheiro e as contribuições — no contexto social original correto estabelecido pelo Eterno —, não serviria para a expropriação maligna que vemos ocorrer em cada segundo no ambiente de controle estatal. 

Infelizmente, os judeus terminaram por distorcer completamente essa intenção original daquele sistema, a tal ponto que o próprio D'us se viu obrigado a destruir o Templo e tudo o que nele havia (Ver as sanções prescritas em Deuteronômio). Mas, este será um assunto para outro momento. 

Quanto ao modus operandi do Estado, colocamos em destaque a parte mais sutil: este Estado Moderno, mesmo sendo secular, absorveu resquícios da Torá (como "direitos humanos", "dignidade da pessoa", "justiça"). Mas ele não o fez por submissão ao Eterno. Ele o fez quase como uma "mea culpa". Isso, na verdade, é o fruto de uma consciência pesada que, lá no fundo, sabe o que é certo, mas se recusa a servir integralmente a verdadeira Fonte de todo o progresso humano e social. Ele pegou os frutos da moralidade judaico-cristã, mas cortou a raiz.

VI. Conclusão: Entropia Social e a Escolha Perpétua

E isso nos traz ao nosso beco sem saída atual.

A sociedade humana, como qualquer sistema fechado e desprovido de uma fonte externa de ordem (D'us), está sujeita à Entropia. O conceito científico da 2ª Lei da Termodinâmica — de que tudo tende da ordem para o caos — aplica-se perfeitamente à sociologia.

Chamo isso de Entropia Social: o processo degradante e inexorável da sociedade.

Sem o "fator homem regenerado pelo Eterno", qualquer sistema social, seja ele o AnCap racionalista ou a Democracia liberal, irá degenerar. As relações se deterioram, a confiança desaparece, e o caos (entropia) aumenta.

E qual é a resposta humana ao caos?

Mais controle. Mais Estado. Mais leis. Mais coerção (Lembre-se: "Quanto mais nos afastamos da Torá, mais o Estado cresce"). E, por conseguinte, mais leviatã. 

O Anarcocapitalismo é uma tentativa nobre de reverter a entropia usando a lógica, mas ela é ineficiente. É como tentar impedir um prédio de ruir apenas gritando as leis da física para ele. Falta-lhe o poder da regeneração espiritual.

E é aqui que o círculo se fecha de forma assustadora.

Essa degeneração entrópica, e a correspondente expansão do Estado Moderno para "conter" o caos que ele mesmo fomenta, não é um processo infinito. Ela tem um destino.

Devido a essa entropia social inexorável, o processo de deterioração humano necessariamente haveria de conduzir a própria criação dos homens à manifestação mais visível do mal.

O cataclisma mundial final será promovido precisamente pela figura do Anticristo, que atuará diretamente através do Estado para alcançar seus objetivos de subjugação, controle e domínio. Ele não será uma novidade; ele será a cristalização e o ápice daquela mesma rebelião de 1 Samuel 8. Ele será a resposta final da humanidade ao seu próprio caos. Ele será o "Leviatã" encarnado.

O sistema do Anticristo será, na verdade, a resposta adequada e correspondente ao modo de vida de uma sociedade totalmente controlada, aprisionada em si mesma, que há muito abandonou o "sistema do Eterno".

É interessante observar, quando visualizamos todo este cenário, o registro profético quanto ao tipo de poder político que se ergueria "no tempo do fim": 

"E, como os artelhos eram em parte de ferro e em parte de barro, assim por uma parte o reino será forte e por outra será frágil. Quanto ao que viste do ferro misturado com barro de lodo, misturar-se-ão com semente humana, mas não se ligarão um ao outro, assim como o ferro não se mistura com o barro." (Daniel 2.42-43). 

Em apertada síntese, o rei Nabucodonosor teve um sonho de uma estátua que, conforme a tradução do profeta Daniel, representava todos os reinos do mundo que viriam a partir de Babilônia. Ao chegar aos pés da estátua, Daniel observa que a mistura de materiais (ferro e barro) simbolizava a coexistência de "fortaleza" e "fraqueza" no mesmo ente ou estrutura de governo político do fim dos tempos

O que desejo destacar aqui é que, parece-me que o Estado Moderno que se apresentará nesse período de tempo do fim, coincidentemente concebe a "fortaleza" da coerção e da imposição, com a "fraqueza" da suposta defesa dos direitos humanos, sociais e individuais. Mas, segundo as profecias, podemos saber no que resultará esta notória hipocrisia coletiva.    

Por fim, percebo que o que comecei observando num vídeo de Youtube, terminou por me conduzir para o livro do Apocalipse.

A história de 1 Samuel 8 não é um evento passado. É uma escolha perpétua que se apresenta a nós todos os dias. Continuamos, como sociedade e como indivíduos, a rejeitar o "Reino de D'us" — que apregoa a liberdade, a justiça e a equidade (Isaías 9, Mateus 5-7) — em favor de um "rei" (ou de um império) visível.

A escolha final permanece: a "difícil" liberdade sob D'us, ou a "confortável" escravidão sob o Estado Moderno que o Diabo fez. 

Embora não pareça uma boa notícia no curto prazo, a determinação divina exarada pelos profetas conclui a ficção histórica mundana com o encerramento das atividades malignas soberbas e de controle humano. Nesta ocasião, o verdadeiro Rei de toda a Criação irá transmitir e compartilhar o seu reino com os justos súditos transformados pelo Seu amor e Sua dignidade. 

É o que atestam as profecias:

"Mas, nos dias desses reis, o D'us do céu levantará um reino que não será jamais destruído; e esse reino não passará a outro povo; esmiuçará e consumirá todos esses reinos, e será estabelecido para sempre.(...) Da maneira que viste que do monte foi cortada uma pedra, sem auxílio de mãos, e ela esmiuçou o ferro, o bronze, o barro, a prata e o ouro; o grande D'us fez saber ao rei o que há de ser depois disto. Certo é o sonho, e fiel a sua interpretação." (Dn.2)

"Mas quanto aos outros animais, o seu domínio lhes foi tirado;(...) E eu olhava nas minhas visões da noite, e eis que vinha com as nuvens do céu um como o Filho do Homem, que dirigiu-se ao Ancião de Dias e o fizeram chegar até ele. E foi-lhe dado o domínio, e a glória, e um reino, para que todos os povos, nações e homens de todas as línguas o servissem; o seu domínio é um domínio eterno, que não passará, e o seu reino o único que nunca será destruído. (...) Vi que o chifre fazia guerra contra os santos e os vencia, até que veio o Ancião de Dias e foi dado o juízo aos santos do Altíssimo, e chegou o tempo em que os santos possuíram o reino. Ele me falou do quarto animal, que era diferente de todos os outros e que devorava, triturava e pisava o que sobrava com os seus pés; era o quarto animal que tinha dez chifres. Enquanto eu contemplava os chifres, vi entre eles outro chifre, pequeno, que diante dele três dos primeiros chifres foram arrancados; e vi que havia olhos no chifre, e que tinha boca que falava com arrogância. [Mas] o tribunal assentou-se... o juízo estabelecer-se-á, e eles tirarão o seu domínio, para o destruir e para o desfazer até ao fim. E o reino, e o domínio, e a majestade dos reinos debaixo de todo o céu serão dados ao povo dos santos do Altíssimo; o seu reino será um reino eterno, e todos os domínios o servirão e lhe obedecerão." (Dn.7.)

"Mas, como está escrito: As coisas que o olho não viu, e o ouvido não ouviu, e não subiram ao coração do homem, são as que D'us preparou para os que o amam." (1Cor.2.9)

Você também quer fazer parte deste Reino? 

Shalom! 

Nota: Buscamos nos referir a D'us com apóstrofo em nossos textos e produções em atenção ao nome do Eterno, em hebraico. 

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